Mais de um milhão de portugueses vive com algum tipo de incapacidade. No entanto, segundo a União Mundial de Cegos, menos de 10% de tudo o que se publica existe em formatos acessíveis, como braille, áudio ou letra ampliada.
…Mais de um milhão de portugueses vive com algum tipo de incapacidade. A dificuldade em ver afeta 3,5% dos residentes, a de ouvir 2,8%, e apenas 5,4% da população com incapacidade concluiu o ensino superior. Quem não alcança o livro não alcança, quase sempre, a escola, o emprego e a vida pública que deles dependem. A leitura não é um luxo cultural. É uma condição de cidadania.
É aqui que ganha sentido a Edições Access Lab, a primeira editora portuguesa construída a pensar precisamente nos leitores que costumam ficar à margem: pessoas com deficiência, neurodivergência e surdez. Estreou-se na Feira do Livro de Lisboa com Terra de Cegos, de Andrew Leland, e anuncia sete títulos no primeiro ano, parte deles em áudiolivro e braille. O que distingue um projeto assim não é acrescentar acessibilidade no fim do processo. É mudar a identidade do leitor presumido logo no princípio.
A exclusão cultural raramente é ruidosa. Instala-se pela normalização de uma falta, pela ideia de que certas pessoas não fazem parte do público. Uma esfera pública que só alcança uma parte dos cidadãos é, à partida, uma esfera deformada. Reconhecer mais leitores é reconhecer mais gente como interlocutora legítima.
